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Trólebus Neobus que rodava em linha de corredor (Foto: Jorge Françoso de Moraes/Museu Virtual)

Como já falamos diversas vezes, o sistema trólebus da cidade de São Paulo sofreu uma grande baixa entre os anos de 2002 e 2004. Nesse período, metade das linhas foram desativadas, passando a operar com ônibus comuns movidos a diesel. E tudo por motivação política. Você pode relembrar clicando aqui.

Em meio a discussão sobre sua desativação, muitos especialistas da época defendiam seu ponto de vista, inclusive apontando a viabilidade desse tipo de veículo na cidade. E é um consenso que o trólebus funciona muito bem nos corredores exclusivos. Ele pode operar em vias comuns? Claro, mas é no corredor que ele mostra todo o seu potencial.

Além dos motivos absurdos alegados pela gestão Marta Suplicy para a retirada dos trólebus, notamos algo mais do que isso: a incoerência no que diz respeito aos locais onde eles operavam.

Vejam, nesse período foram desativados os trólebus de 12 linhas: 107P, 107T, 1301, 1428, 2001, 2003, 577U, 637P, 6500, 702P, 7110 e 9300. Dessas, 5 linhas, ou seja, quase metade circulavam por algum corredor na cidade de São Paulo: 2001, 2003, 637P, 6500, e 9300. Não consideramos a 577U por conta do pequeno trecho. Ou seja, os trólebus de 5 das 12 linhas foram retirados justamente dos corredores exclusivos, locais onde esse tipo de veículo opera muito bem.

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Frota de trólebus das linhas desativadas (Foto: Thiago Silva/SPTrans)

Se considerarmos a frota da época, a situação é mais assombrosa. Segundo um levantamento que fizemos e que considerou a frota máxima operacional meses antes da desativação, o número de trólebus dessas linhas era de cerca de 227. Desse total, 125 veículos faziam parte das linhas que circulavam em corredores, ou seja, 55% da frota. Os trólebus da linha 6500 representavam com mais de 1/3 desse total.

A prefeitura, além de usar argumentos completamente infundados, removeu a maioria dos trólebus de linhas que circulavam nos locais mais apropriados, os corredores. Beira quase o absurdo se pararmos para refletir.

Continuamos sendo contra a desativação do sistema trólebus, mas já que a prefeitura da época queria removê-los, porque não se concentrar nas linhas que não trafegavam em corredores? Seria um pouco mais coerente e reduziria o peso da motivação política que norteou o processo.

A boa operação dos trólebus nos corredores não é algo novo. Há décadas que isso já é sabido. Nos corredores, eles possuem uma boa velocidade, não enfrentam trânsito e com um bom pavimento, a possibilidade de escape de alavanca ou quebra de rede é bem pequena.

A primeira linha de trólebus a operar em corredor foi a 3160/10 – Terminal Vila Prudente / Terminal Pq. Dom Pedro II, que foi inaugurada em 1980 e é a única a operar atualmente. Em meados dessa mesma década os trólebus foram implantados no corredor 9 de Julho. No âmbito metropolitano, esses veículos passaram a rodar no corredor São Mateus-Jabaquara, operado atualmente pela empresa Metra. Já no final da década de 90, os trólebus passaram a rodar no corredor Rio Branco. E não ia parar por aí. O Fura-fila seria operado por trólebus biarticulados.

Vale ressaltar que na década de 70, quando da criação do Plano Sistran, estava previsto diversos corredores que seriam exclusivos para trólebus, mas uma boa parte do projeto não saiu do papel, infelizmente.

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Mapa dos corredores que tiveram e ainda têm trólebus (Foto/confecção: Thiago Silva)

Hoje, com exceção da linha 3160/10, todas as outras operam em vias comuns com, no máximo, faixas exclusivas, ativas em parte do dia. Por esse motivo, os trólebus são menos eficientes do que poderiam ser.

A cidade de São Paulo possui, atualmente, cerca de 132 km de vias exclusivas para ônibus, mas apenas os 3,9 km do Paes de Barros possuem trólebus. Sendo assim, são 128 km de corredores que poderiam receber esse tipo de veículo, conforme já explicamos neste artigo aqui.

De uma maneira geral a desativação parcial do sistema trólebus paulistano foi um erro atrás de erro. Incoerências atrás de incoerências. O peso político falou muito, mas muito mais alto que a questão técnica. Mas dá para recuperar todo esse tempo perdido. É caro e demorado, mas não impossível.