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Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (Foto: Nacho Doce/Reuters)

Nos últimos dias, um vídeo de uma reunião ministerial conduzida pelo Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi divulgado em vários veículos de comunicação, como prova para as declarações do ex-ministro Sérgio Moro. De uma maneira geral, isso não é o foco do blog, até porque, não cabe a nós falar de política nesse contexto.

A questão aqui foi uma declaração do Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e aí o tema é de nossa alçada, já que, como muitos sabem, a sustentabilidade é um dos assuntos que compõem a estrutura do Plamurb.

Salles, que até o ano passado era filiado ao Partido NOVO, foi escolhido por Bolsonaro e defendeu priorizar uma agenda ambiental urbana, o combate ao lixo marinho e a agilidade nos processos de licenciamento. São temas bem sensíveis e importantes, considerando a realidade brasileira.

Mas o que vimos na referida reunião ministerial, nos deixou, no mínimo, preocupados. Salles, quando teve a palavra, afirmou que o governo deveria aproveitar que a atenção da mídia estava voltada para a pandemia e fazer alterações de modo a afrouxar regras ou regulamentações na área ambiental.

“Oportunidade que nós temos, que a imprensa não tá … tá nos dando um pouco de alívio nos outros temas, é passar as reformas infralegais de desregulamentação, simplificação. Grande parte dessa matéria ela se dá em portarias e normas dos ministérios, inclusive o de Meio Ambiente. Enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de Covid, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”, disse Ricardo Salles.

Vale ressaltar que o referido ministro nunca foi unanimidade. Quando de sua nomeação, houve uma repercussão negativa até mesmo fora do país. Por outro lado, o setor do agronegócio festejou. Bolsonaro, na época, inclusive afirmou que se as entidades do setor estavam criticando, sinal de que a escolha de Salles foi acertada, argumento muito comum dentro da política, independente do espectro e ideologia.

Em 2018, quando fizemos uma análise sobre o plano de governo de todos os candidatos, no programa de Bolsonaro pouco ou quase nada se falava de questões ambientais, exceto pelo excesso de leis que burocratizam obras e ações.

Mas voltando a falar de Salles, sua declaração, no mínimo, é grave. É muita má fé sugerir se aproveitar de uma situação como a qual estamos vivendo, para fazer alterações. Se é necessária uma desatenção, no mínimo, elas são altamente questionáveis e, de certa forma, ilícitas.

Quem faz direito e corretamente não precisa se aproveitar de um momento como esse. Sabemos que há algumas burocracias, isso é fato, assim como outras em diversos setores do governo, mas o correto seria a clareza na discussão sobre esse assunto, já que o atual governo vendeu a ideia de clareza.

De uma maneira geral, o Brasil já teve grandes obras com um alto impacto ambiental e, na maioria delas, houve um cumprimento à risca, garantindo, assim, a liberação por parte dos órgãos ambientais.

Destacamos, neste caso, o próprio trecho norte do Rodoanel Mário Covas, que, nada mais, nada menos, passou no meio da Serra da Cantareira, uma das maiores florestas urbanas do mundo. Quer impacto maior que esse? Mas as obras foram aprovadas, apesar dos escândalos de corrupção envolvendo as construtoras e o governo estadual.

Há ainda outras obras bem conhecidas dos paulistas, como a Pista Sul da Rodovia dos Imigrantes, inserida na Serra do Mar, que contou com túneis e viadutos extensos para garantir o menor impacto ambiental possível. Para se ter uma ideia, o desmatamento na construção desta pista foi 40 vezes menor do que o da Pista Norte, inaugurada na década de 70.

Outro exemplo é o da Linha 13-Jade, que transpôs o Parque Ecológico do Tietê com o menor impacto possível. Houve até o resgate de espécies de animais e levadas para outros ambientes, preservando-as.

Como podemos ver, talvez o problema não seja o excesso de regras e leis. Talvez o ministro queira fazer as coisas de qualquer jeito, sem a preocupação adequada e, por isso, quer se aproveitar da pandemia para fazer aquilo que não tem competência suficiente para realizar em uma situação normal.

Dias após a entrevista, e vendo a repercussão negativa, Salles se defendeu em entrevistas a alguns portais de notícias.

Em seu Twitter, Salles se defendeu e disse que argumentou pela simplificação de normas “com bom senso e tudo dentro da lei“.

Para a página do UOL, Salles afirmou, entre outras coisas, que “Se soubesse que [o conteúdo da reunião] iria a público, apresentaria as mesmas ideias, porque são ideias importantes, de desburocratização, simplificação. Mas faria uma introdução para que o brasileiro primeiro soubesse que temos muita preocupação, sim, com a saúde das pessoas e com a pandemia. ”

“Eu não disse que pandemia é uma oportunidade. O que eu disse é que a forma como a imprensa tem feito a cobertura… Não tenho problema nenhum sobre a cobertura da imprensa. Mas o volume de crítica, o nível de manipulação, isso atrapalha enormemente. Não é cobertura justa. É militância. E isso atrapalha muito”, afirmou na mesma entrevista.

“O que temos observado nos últimos tempos: a cobertura da imprensa, que é democrática e não incomoda, mas tem uma cobertura ativista, que desinforma a sociedade. Não é verdade que somos insensíveis. O que eu falei ali é que seria hora efetivamente de revisar as regras normativas”, acrescentou.

Enfim, Salles sempre será um ministro com nível de desconfiança alto. E, a partir de agora, mais do que nunca, todas suas ações serão vistas com extrema suspeita.