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Ciclofaixa da Avenida Direitos Humanos (Foto: Thiago Silva)

Em meio aos problemas decorrentes da pandemia de coronavírus, muitas ações estão sendo tomadas para minimizar os impactos negativos, reduzir a circulação de pessoas e não sobrecarregar o sistema de saúde, neste caso, por conta do alto número de contaminados.

E nos países que já passaram por pelo pico da pandemia, ou, digamos, estão em uma situação menos crítica ou mais estabilizada, surgem movimentos pedindo a ampliação ou utilização de bicicletas, que, efetivamente, é uma das melhorias saídas para se evitar aglomerações, tão comuns no transporte público.

Fala-se em ampliar as rotas ciclísticas, financiar a aquisição de bicicletas, criar faixas para bicicletas provisórias em locais onde hoje existe outro tipo de estrutura, criar bolsões para guardar esses veículos e priorizar, em lojas, estacionamentos exclusivos para as magrelas.

São ações importantíssimas e que, claramente, desenharão o futuro da mobilidade após essa pandemia. Como gostamos de dizer, nesses países, que já possuem uma cultura menos apegada aos automóveis, a força da micromobilidade e mobilidade ativa será muito maior após a pandemia.

Por outro lado, é inegável comparações com o Brasil, até porque, os impactos da pandemia estão fortíssimos, mas, ainda assim, nossa estrutura para a mobilidade ativa está muito aquém do mínimo necessário para garantir um deslocamento mais seguro. Falando mais especificamente da cidade de São Paulo, fica claríssimo que foram três anos perdidos, três anos de inércia e que, agora, ficou mais evidente.

De 2017 para cá, praticamente, nada foi feito em relação às ciclovias, faixas para ônibus ou até mesmo calçadas. Muito pelo contrário, houve uma resistência enorme para ampliar as rotas de bicicletas. Mais do que isso, a gestão Doria/Covas (PSDB) politizou as ciclovias, associando tais estruturas a grupos ou ideologias políticas. Até a cor da ciclovia foi motivo de questionamentos.

O mesmo ocorreu com as faixas para ônibus, onde algumas delas tiveram o horário reduzido, cedendo à pressão de comerciantes que alegavam ter havido uma queda em seus comércios sob a justificativa de que seus clientes não tinham onde parar seus carros.

Hoje, diante da pandemia e observando países europeus, fica claro como a cidade foi prejudicada por conta dessa inércia em prosseguir com a ampliação das ciclovias e ciclofaixas. Uma inércia puramente política, como dito acima, já que se fosse por questões técnicas haveria tempo suficiente para se planejar e executar novas rotas. Vejam, foram três anos perdidos, e não apenas três meses.

A gestão anterior, de Fernando Haddad (PT), em quatro anos, implantou cerca de quase 500 km de ciclovias ou ciclofaixas. Muitos questionam a qualidade e o planejamento, mas em todo caso, se houve erros, foram quase nulos, se levarmos em conta os benefícios trazidos.

Se a gestão Doria/Covas implicava com essa suposta falta de planejamento, poderiam, em três anos, com planejamento, terem implantado, no mínimo, uns 250 km de ciclovias. Com certeza, a estrutura estaria melhor ou mais apta a receber um contingente maior, sobretudo diante dessa pandemia.

Indo mais além, como seria a cidade sem essa estrutura já implantada? Com certeza pior, já que no momento, onde muitos estão em casa, o uso por parte dos entregadores ou pessoas que ainda precisam trabalhar, aumentou bastante, até porque, o risco de contaminação é bem menor, dado que o nível de aglomeração é reduzido se comparado ao transporte público, por exemplo.

Agora, infelizmente, não há muito o que fazer da noite para o dia, mas fica claro que deixar de fazer o que era obrigação também se caracteriza como falta de planejamento. A prefeitura apostou em empurrar com a barriga e politizar as estruturas ciclísticas e o resultado está aí. Um retrocesso enorme e dificílimo de ser revertido em tão pouco tempo.

E reforçando que essa inércia também vale paras as faixas para ônibus e calçadas, já que tais estruturas são essenciais para um deslocamento rápido e seguro. Aliás, será que a largura das calçadas da cidade permite uma distância segura de isolamento social? Duvidamos.

Mas como sempre gostamos de deixar claro, não basta apenas reclamar. A inépcia da prefeitura já está aí. O que a atual gestão deveria fazer é gradativamente ampliar essas rotas. A prefeitura anunciou no final do ano passado a implantação de 173 km de novas ciclovias e o remanejamento de outros 12 km, tudo para este ano de 2020. Até agora, porém, alguns poucos quilômetros foram implantados e é difícil que tudo seja implementado ainda esse ano. Ou seja, caberá ao próximo prefeito dar continuidade e elaborar mais um outro plano para ampliar essas rotas.

Hoje a cidade possui 17 mil km de vias, mas apenas 500 km de ciclovias, a maioria implantada na gestão de Haddad. É uma diferença absurda e vergonhosa e que mostrou, nessa pandemia, que ficar inerte em um prazo tão longo é muito mais nocivo do que fazer algo “supostamente” sem planejamento.

E por falar em planejamento, que as próximas gestões não fiquem nesse planejamento eterno e tirem do papel as novas ciclovias, bem como faixas para ônibus e melhorias nas calçadas. Mesmo porque, o primeiro plano cicloviário, elaborado pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), é dos anos 80. De lá para cá outros planos foram elaborados. Com ajustes para se adequar à dinâmica atual da cidade, daria para se fazer muita coisa. Mas a atual gestão deixou esses três anos passarem em branco.