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Trem operando na Linha 13-Jade (Foto: Thiago Silva)

Os projetos de linhas metroferroviárias mudam conforme se passa o tempo e a dinâmica da cidade é alterada. Isso é perfeitamente normal. Basta lembrar de como seriam as linhas de metrô lá no final da década de 60.

As pesquisas de Origem e Destino ajudam a nortear o Poder Público no que tange reconfigurar a malha sobre trilhos, priorizando umas linhas e postergando outras. Até porque isso serve para, entre outras coisas, permitir a flexibilidade no deslocamento, dando mais opções ao passageiro e reduzindo o seu tempo.

O problema começa quando se tem, digamos, uma certa “rivalidade” entre as duas empresas públicas sobre trilhos paulista. Vamos explicar. A Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), prestam o mesmo tipo de serviço. A diferença está, basicamente, na abrangência e na capilaridade, no que se refere à presença de estações. Vejam, as linhas do Metrô estão todas dentro da cidade de São Paulo, com estações em distâncias menores. A CPTM atende 23 municípios, com estações em distâncias maiores.

Muitos projetos de linhas futuras das duas empresas acabam de complementando, principalmente pelo fato de que não dá para pensar na cidade de São Paulo de forma isolada. Acrescenta-se a isso, a escassez de uma ampla e densa rede sobre trilhos.

Entretanto, após analisar o Relatório do Metrô do ano de 2019, e os projetos futuros de linhas, acabamos por visualizar um possível conflito. Um conflito que pode ser nocivo do ponto de vista da mobilidade urbana.

Vamos lá, no Metrô, existe o projeto da Linha 16-Violeta que, até poucos anos atrás, sairia da Cachoeirinha, na zona norte, e iria até o Ipiranga, na zona sul, beneficiando uma região extremamente carente de sistemas sobre trilhos. No Relatório do Metrô, porém, a linha teve o traçado completamente alterado, passando a ligar o Jardim Paulista até Cidade Líder na zona leste.

Há também a caçula linha da CPTM, a 13-Jade que, no momento, liga a Estação Engenheiro Goulart até o Aeroporto de Guarulhos, com 9 km de extensão. E é de conhecimento de todos que essa linha será prolongada nas duas pontas, sendo que no sentido sul, avançará na porção sul do bairro do Tatuapé, Mooca e, em uma outra etapa, se conectará com Chácara Klabin, região de Vila Mariana.

Linha 6-Laranja na zona leste

Para entender melhor, vamos voltar uns anos. Quando a licitação da Linha 6-Laranja foi concluída, pouco depois, o governo estadual divulgou o projeto de possíveis prolongamentos nas duas pontas.

No lado norte, a linha continuaria a partir da Brasilândia e chegaria até a Rodovia dos Bandeirantes. Do outro lado, no sentido leste, a linha seguiria a partir de São Joaquim indo até o bairro de Cidade Líder. Essas duas extensões, entretanto, não tinham prazo para sair do papel, até porque, nem o trecho principal da linha estava finalizado. Veja que, atualmente, as obras da Linha 6-Laranja estão paralisadas.

Linha 13-Jade não indo mais para o Brás

Nessa mesma época, ficou decidido que a mais nova linha da CPTM seguiria, no trecho central, para a região sudeste de São Paulo, não indo mais para o Brás, como estava previsto anteriormente, um grande ganho e acerto do ponto de vista de mobilidade urbana.

A partir da futura Estação Guaiaúna, a linha seguiria em, provavelmente, subterrâneo e passaria pela parte sul do bairro do Tatuapé, atendendo parte do bairro da Mooca, cruzando a Linha 10-Turquesa e terminando em Chácara Klabin, se integrando com a Linha 5-Lilás.

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Linha 13-Jade (Foto/confecção: Thiago Silva)

Linha 16-Violeta na Cachoeirinha

Como mostramos neste artigo, o traçado original da Linha 16-Violeta era sair da Cachoeirinha, passar pela região central da cidade e terminar no Ipiranga, se integrando com a Linha 10-Turquesa da CPTM.

Essa linha, inclusive, faria conexão, justamente, com o trecho leste da Linha 6-Laranja, na ex-futura Estação Glicério, mas com as mudanças, o traçado foi completamente alterado.

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Antigo traçado da Linha 16-Violeta (Foto: Metrô SP)

Trecho leste herdado pelo novo traçado da Linha 16-Violeta

Com a mudança, a Linha 16-Violeta deixou de atender a Cachoeirinha e agora sairá da Estação Oscar Freire, se integrando com a Linha 4-Amarela, e chegará até Cidade Líder. Esse trecho leste, mais precisamente a partir da futura Estação São Carlos (ou Parque da Mooca), foi herdado justamente da Linha 6-Laranja.

Nos últimos anos, por conta dos diversos problemas e adversidades, nada se falou mais sobre o trecho leste da Linha 6-Laranja. O governo tem se concentrado em tirar o trecho prioritário do papel, uma vez que as obras estão paradas deste 2016.

Por esse motivo, o prolongamento para Cidade Líder mudou de linha. Porém, antes dessa troca, houve um período onde não se sabia o que fazer com esse trecho, o que pode, veja bem, pode indicar, digamos, que o Metrô ficou desorientado, mas decidido a não descartar esse trecho.

Vale ressaltar que com essa mudança, o trecho da Linha 6-Laranja entre São Joaquim e São Carlos (ou Parque da Mooca) foi suprimido. Ele teria três estações: Aclimação, Glicério e Alberto Lyon.

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Linha 16-Violeta (Foto/confecção: Thiago Silva)

A nova Linha 16-Laranja e a incerteza da Linha 13-Jade

Após a “salada” acima, vamos, finalmente, entrar no objeto deste artigo. No Relatório do Metrô, consta que a Linha 13-Jade terá algumas estações no sentido centro, mas dentro do eixo da Linha 12-Safira, parando em Tiquatira (ou Gabriela Mistral). Ou seja, nada se fala sobre qual rumo a linha tomará a partir desse ponto. Se seguirá com o traçado já projetado ou se irá para o Brás de vez, oficializando o que é ofertado por meio do Serviço Connect.

Outro fato que acende o sinal de alerta é que parte do novo traçado da Linha 16-Violeta passará muito próximo sobre onde, justamente, esse futuro prolongamento da Linha 13-Jade, servirá a parte sul do Tatuapé e o bairro da Mooca. A título de curiosidade, entre as futuras estações Itapura e Glória (cerca de 8 km), a Linha 13-Jade percorrerá em paralelo à Linha 16-Violeta em distâncias que vão variar de 600 a 950 metros.

Esse conflito é perigoso porque, caso efetivado, trará consequências negativas e desastrosas dentro do contexto urbano. A região da Cachoeirinha, que hoje depende apenas do Corredor Inajar de Souza, perdeu uma linha para uma região que já é provida de metrô. Só para terem uma ideia, o trecho da Linha 16-Violeta entre Oscar Freire e Paraíso ficará paralelo à Linha 2-Verde em apenas 1km de distância. E ainda falando da Linha 2-Verde, se seguirmos no sentido norte, a menos de 1km passará a Linha 6-Laranja e se formos mais para cima, temos a Linha 3-Vermelha a pouco mais de 1km. Em resumo, teremos quatro linhas de metrô correndo paralelas a menos de 3,5km de distância.

E, como já dito anteriormente, parte dessa Linha 16-Violeta será implantada próxima de onde já há o projeto da Linha 13-Jade. Vai “sobrar” linha de metrô em uma região e faltar em outra.

Mas aí vocês podem estar se perguntando: “Ué, mas se o trecho leste da Linha 16-Violeta é nada mais do que o prolongamento da Linha 6-Laranja, então não dá no mesmo?”

A resposta é não. E explicamos. O prolongamento da Linha 6-Laranja deixou de ser divulgado quase que no mesmo momento onde ficou decidido que a Linha 13-Jade não iria mais para o Brás. Não estamos dizendo que um substituiu o outro, porém, o principal problema foi retirar uma linha da Cachoeirinha e projetar para uma região que já possui metrô, sendo que parte do trecho leste ficará próximo de onde já há o projeto da Linha 13-Jade.

Para piorar a situação, com a confirmação da supressão desse trecho da linha da CPTM, não restará outra alternativa senão seguir, efetivamente, ao Brás, um local já saturado e bem servido por outras linhas da CPTM. E o problema não acaba aí: para chegar até o Brás será necessário a construção de mais um par de vias exclusivas para a Linha 13-Jade, afinal, para uma boa operação com intervalos menores, não seria prudente usar os mesmos trilhos da Linha 12-Safira, a não ser que se troque a sinalização desta linha, permitindo operações alternadas, o que, ainda não é de nosso agrado.

E para se implementar mais vias paralelas, haverá a necessidade de alargar a faixa de domínio entre Engenheiro Goulart até o Brás, fato com elevado grau de dificuldade, dada a situação atual da faixa ferroviária: espremida entre a Linha 3-Vermelha do Metrô e Radial Leste, ao sul, e entre vias e edificações no lado norte.

É claro que construir vias paralelas no trecho citado é muito mais barato do que construir túneis e bancar desapropriações entre Tiquatira e a região da Mooca e Chácara Klabin, porém, esse custo existirá com a Linha 16-Violeta.

Outro detalhe importantíssimo é que caso a Linha 13-Jade seja prolongada até o Brás, ela perderá o seu futuro potencial por conta da caraterística da linha: uma linha perimetral. Indo até o centro, continuará sendo só mais uma linha radial com a mesma característica pendular da Linha 12-Safira ou Linha 11-Coral, situação essa exaustivamente criticada por especialistas da área.

Não se pode perder a oportunidade. Será um retrocesso enorme. A Linha 13-Jade não pode ser oficializada até o Brás. Ela precisa seguir se traçado já projetado, permitindo diversas conexões, um fator de renovação alto além de propiciar uma ligação mais rápida entre Guarulhos e seu aeroporto, até a região sul da cidade, sem a necessidade de ir até centro.

Para nós, a Linha 16-Violeta deveria ter seu traçado anterior repensado, já que a zona norte nunca é lembrada em projetos futuros do Metrô. Até o momento é apenas uma linha, a 1-Azul. Por parte da CPTM há a Linha 7-Rubi, mas situada na porção oeste da zona norte.

Enquanto isso, a Linha 6-Laranja está com obras paradas há quase 4 anos e a Linha 19-Celeste está em fase de contratação do projeto básico. Ou seja, antes de 2025 não teremos uma nova linha na zona norte.

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Trecho do Tatuapé e Mooca das linhas 13-Jade e 16-Violeta (Foto/confecção: Thiago Silva)

Alternativas

Para o Plamurb poderia se pensar em alternativas. Em primeiro lugar, o ideal seria a Linha 16-Violeta ter seu traçado original, atendendo a Cachoeirinha, mas considerando que esse novo trajeto está, praticamente, consolidado, talvez uma alternativa seria deslocar o traçado um pouco mais ao sul a partir de São Carlos (ou Parque da Mooca), nas proximidades do Hospital e Maternidade São Cristóvão, cruzando a Avenida Salim Farah Maluf na altura da Rua Pirajá.

Assim, o atendimento seria melhor distribuído, sem comprometer o prolongamento da Linha 2-Verde que passará mais ao sul. A Linha 16, então, serviria a região da Mooca, enquanto que a Linha 13 atenderia a parte sul do Tatuapé, no eixo da Rua Azevedo Soares.

E para finalizar o artigo, dizem que “desgraça pouca é bobagem”. Pois então, no mesmo relatório do Metrô, consta que a Linha 5-Lilás será prolongada a partir de Chácara Klabin até o Ipiranga, local próximo de onde, também, passaria o prolongamento da Linha 13-Jade. Tem-se a impressão que essas alterações foram feitas de forma a anular a necessidade da linha da CPTM ir para a Mooca, abrigando-a a seguir para o Brás.

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Projeção do mapa futuro (Foto/confecção: Thiago Silva)

Esperamos que esse seja um equívoco nosso e que possamos estar completamente errados. Mais do que isso, esperamos que o Metrô não use a Linha 16-Violeta para forçar a CPTM a desviar a Linha 13-Jade para o Brás.

Enfim, contatamos a CPTM e estamos esperando uma resposta. Assim que tivermos, colocaremos aqui.