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Jato da Embraer 195 (Foto: Embraer galeria de mídia)

A Empresa Brasileira de Aeronáutica, agora simplesmente denominada de Embraer S.A, foi fundada em 1969 como uma empresa estatal vinculada ao Ministério da Aeronáutica. Atualmente figura como a terceira maior fabricante de aviões comerciais até 130 lugares.

Recentemente, a empresa pretendia se unir à americana Boeing, criando uma Join Venture chamada, Boeing Brasil – Commercial, com 80% de participação da Boeing e 20% da Embraer. Tal ação, entre outras coisas, era uma resposta à associação entre Airbus e Bombardier.

Entretanto, há poucos dias, após o processo ser quase finalizado, a Boeing decidiu, de forma unilateral, não dar continuidade. E, em um momento tão delicado, por conta da crise desencadeada pela pandemia do coronavírus, muitos acreditam que a Embraer será muito prejudicada. É aí que entra a possibilidade a empresa brasileira se reinventar.

Mas antes de seguir com o nosso ponto de vista, como gostamos de fazer, vamos contar um pouco da história da Embraer, de acordo com informações coletadas em seu próprio site. Acompanhe.

História

Em 1950, o Governo Brasileiro inaugurou o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) com foco na formação de engenheiros aeronáuticos. Nele, ingressou um garoto inquieto e sonhador, em 1959. Ozires Silva formou-se engenheiro aeronáutico em 1962 e passou a participar (e, na sequência, coordenar) do desenvolvimento de um projeto de aeronave que resgatasse a aviação regional no país.

Com primeiro voo bem-sucedido em 1968, o Bandeirante teve tamanha aceitação que exigiu a criação de uma fábrica que organizasse sua produção seriada. Nascia, assim, a Embraer.

Convencida do potencial de mercado associado à aviação regional e das primeiras experiências bem-sucedidas com o protótipo, a equipe partia, então, para um novo desafio: viabilizar a fabricação em série do Bandeirante. Após tentativas junto ao setor privado, o time liderado por Ozires Silva articulou com o governo a criação de uma companhia de capital misto, com capitalização inicial do Estado.

Em 19 de Agosto de 1969, a Embraer foi oficializada via Decreto de Lei. Suas atividades se iniciaram em 2 de janeiro de 1970, em endereço que, até hoje, homenageia a data (Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2170 em São José dos Campos – SP). Para viabilizar a comercialização do Bandeirante, a Embraer introduziu diversas modificações no modelo. Depois delas, o avião trocou de código: recebeu a numeração EMB 110, deixando as iniciais “EMB 100” apenas para os primeiros três protótipos.

Ao longo dos anos 1970, o Bandeirante ganhava destaque no mercado e rasgava os céus dos quatro cantos do planeta. Simultaneamente, a Embraer trazia soluções inovadoras para seus primeiros clientes nos segmentos de aviação agrícola, comercial e executiva. Entre as aeronaves apresentadas, destacaram-se o Ipanema, o Xavante e o Xingu, além da linha montada em parceria com a americana Piper.

Após seus primeiros 10 anos de vida, a Embraer ganhava maturidade e altitude. As aeronaves apresentadas já se consolidavam e o Bandeirante marcava seu nome como grande protagonista da aviação regional global, inclusive no concorrido mercado estadunidense.

Nos anos 1980, foram introduzidas novas aeronaves, especialmente visando os mercados da aviação comercial e de Defesa. Neste nicho, a Embraer se destacou ao estabelecer parceria com as italianas Aeritalia e Macchi (posteriormente, se uniram e formaram a Aermacchi) para desenvolver seu primeiro caça: o AMX. Além disso, inovou ao dar vida ao EMB 312 Tucano – um turboélice de treinamento que aliava desempenho equivalente e custos menores em relação aos modelos a jato da época.

No segmento comercial, a Embraer introduziu o EMB 120 Brasília, um modelo pressurizado que integrava as mais avançadas tecnologias disponíveis. Foi considerado o avião regional mais utilizado do mundo, tendo superado a marca de 350 unidades comercializadas e operadas por 26 companhias aéreas em 14 países.

No início da década de 1990, a Embraer se associou à Fábrica Argentina de Material Aeroespacial (FAMA) para investir em um projeto altamente inovador. Com desempenho acima da média, o CBA 123 Vector era silencioso e veloz. Entretanto, exigindo elevados investimentos das parceiras e enfrentando um cenário econômico internacional desfavorável, o turboélice não teve a aderência esperada do mercado.

Em 1994, após investimentos direcionados ao projeto do CBA 123, a Embraer sofreu com dificuldades financeiras. Uma reformulação profunda era necessária. Ozires Silva voltou, então, à Companhia para conduzi-la a um processo de privatização, que se concluiu no final daquele ano.

Em meio a essa conturbada situação, engenheiros trabalhavam em uma nova aeronave. Estudaram o mercado de aviação regional minuciosamente e sabiam que esse novo modelo era capaz de responder às suas necessidades. Seu nome: ERJ-145 – um bimotor a jato, narrow-body, para 37-50 passageiros. Alinhado às demandas do mercado, o avião teve tamanho sucesso que deu origem a uma família completa de aeronaves Embraer (Embraer Regional Jets – ERJ 135, 140, 145 e 145XR).

O sucesso da família ERJ – Embraer Regional Jets – deu novo impulso à companhia. No início dos anos 2000, foi anunciado o programa E-Jets (jatos comerciais com capacidade para entre 70 e 130 passageiros) e a Embraer intensificou sua participação no segmento de jatos executivos. Foram desenvolvidas as famílias Legacy e Phenom, além do Lineage 1000E, o maior jato executivo do mundo.

Entre os anos 2000 e 2010, a frota de E-jets consolidou a liderança global da Embraer no segmento de aviação comercial regional, enquanto o Phenom 300 se tornou o avião executivo mais vendido do mundo.

Nos anos 2010, foram apresentados o KC-390 – cargueiro militar multimissão desenvolvido junto à Força Aérea Brasileira -, a família de E-Jets E2 (os jatos comerciais regionais mais silenciosos e eficientes do mundo), além da família Praetor, de jatos executivos.

Novos horizontes

A Embraer, de forma tímida, já deu o primeiro passo dentro do segmento de mobilidade urbana por meio do desenvolvimento de um eVTOL (veículo elétrico de decolagem e pouso vertical, em português), uma alternativa pensada para revolucionar a mobilidade urbana, ampliando o acesso ao transporte aéreo dentro das cidades.

O eVTOL é uma parceria com a Uber assinada em 2017. O design externo do veículo lembra o compartimento de um helicóptero. São quatro asas paralelas sendo que na ponta delas, de forma perpendicular, há 2 pequenos motores na posição vertical, totalizando 8. Na parte traseira há, ainda, mais dois motores, maiores, porém esses, estão na posição vertical, da mesma forma com aviões turboélices. Segundo a Embraer, o veículo será movido a eletricidade por meio de baterias.

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eVTOL (Foto: Embraer)

Mas ainda assim, acreditamos que a empresa tenha um potencial enorme de “ousar” ainda mais dentro da área de mobilidade urbana e é aí que entra nosso ponto de vista.

A empresa sempre teve força para competir com suas concorrentes dentro de seu segmento. Entretanto há um porém. Com a compra da Bombardier pela Airbus, a Embraer terá um desafio enorme pela frente. E caberá ao governo ajudar a empresa. Não, não estamos falando de reestatização, nem nada, muito pelo contrário, para nós, a melhor coisa que aconteceu com a empresa foi a sua privatização em 1994.

Porém, o fato de ser privada não impede o governo de ajudar, até porque isso já acontece com a própria Boeing, Airbus, Saab, Sukhoi (antes da UAC) e tantas outras. Não seria um absurdo dizer que pela situação da empresa americana (por conta do 737MAX), seria muito mais fácil a Embraer comprá-la. E dissemos “seria” porque o governo jamais permitiria tal feito.

Mas voltando ao assunto do artigo, com toda essa situação, talvez a Embraer pudesse considerar a possibilidade de construir carros e vagões ferroviários. Isso mesmo, passar a integrar o mercado de fabricantes de material ferroviário.

Em situações como essa, muitas empresas estão ou vão se reinventar para sobreviverem. Basta lembrar o caso da famosa empresa Material Ferroviário S.A (Mafersa), que em um momento de crise e falta de encomenda de trens, passou a fabricar ônibus e trólebus, sendo que teve grande êxito, sobretudo nos trólebus, que tinham reconhecida qualidade.

Se não nos falha a memória, a própria Boeing chegou a fabricar as caixas dos trens do metrô de Chicago. Por esse motivo, a Embraer poderia ir nesse mesmo sentido por conta da tecnologia em metais e compostos. Não seria uma utopia.

No momento, muitas empresas que fabricam trens são internacionais e apenas instalam suas fabricas no Brasil e montam seus equipamentos. Precisamos sair disso, ou seja, ter uma nova empresa nacional que realmente fabrique e não apenas monte.

Veja, temos a famosa Bom Sinal, empresa brasileira que fabrica Veículos Leves Sobre Trilhos (VLTs), mas o foco dela não foge muito disso. Uma eventual Embraer no mercado ferroviário poderia preencher essa lacuna. Talvez até se associar com a Bom Sinal juntando o conhecimento de ambas. Para se ter uma ideia, a Embraer faz parte de um consórcio que fabricará navios para a Marinha do Brasil.

Sabemos que o mercado de trens no Brasil sempre foi instável, ainda por conta de nossa cultura em favor do transporte rodoviário, mas a empresa não pode ficar parada.

E se pensar alto não for proibido, a Embraer poderia entrar no ramo de ônibus elétrico a bateria, já que lá fora algumas empresas que fabricam trens, também fabricam ônibus elétricos, por meio de divisões.

Em uma reportagem veiculada pelo Diário do Transporte, uma das reclamações da SPUrbanuss, que representa as empresas de São Paulo, é a falta, ou o pouco número de fabricantes de ônibus elétricos, de forma a conseguir cumprir com as metas de redução de poluição. Dessa forma, seria mais um ponto a ser pensado pela Embraer.

Enfim, diante do cenário de aviação comercial, a Embraer terá que lidar com o forte concorrente A220, antigo CSeries da Bombardier e, para tanto, dependendo do desenrolar, deverá diversificar seu mercado. Não que a empresa brasileira não tenha competência, muito pelo contrário, mas até agora, os EJets venderam menos que os pequenos jatos da Airbus. E quando esses jatos ainda tinham a marca da empresa canadense, perdiam para a Embraer. Foi com a aquisição por parte da fabricante europeia que tais jatos começaram a vender bem.