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Trem da CPTM na Linha 7-Rubi (Foto: Thiago Silva)

Dentro do campo religioso, a melhora da morte é a situação onde uma pessoa enferma, já desenganada pelos médicos ou de difícil recuperação, repentinamente, apresenta uma melhora, sendo que horas ou dias depois acaba por morrer, deixando seus familiares triste e perplexos pela suposta reviravolta.

Mas vocês devem estar se perguntando qual relação isso tem com os temas abordados pelo blog? Aliás, nos perdoem pelo título sensacionalista.

Bem, vamos por partes.

No ano de 2019 a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), felizmente, ganhou um protagonismo que poucas vezes teve desde a sua criação. No referido ano, a empresa ficou evidenciada positivamente. Isso tudo por meio do novo presidente da empresa, Pedro Moro, que assumiu a estatal no início do ano passado.

Moro resgatou um espírito que estava, digamos, adormecido em muitos funcionários e tirou a empresa da sombra da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) e fez com que ela caminhasse com as próprias pernas. Vejam, até pouco tempo atrás a CPTM era sempre vista como uma “empresa de segunda linha” e as comparações com o Metrô eram constantes, gerando até o termo obtuso de que a empresa teria suas linhas com “padrão Metrô” (com M maiúsculo mesmo).

Acompanhamos as postagens do presidente da estatal nas redes sociais e vimos coisas que não tínhamos visto em anos anteriores. É claro que o poder dessas redes sociais está muito maior que no passado, mas os comentários davam a entender que algumas ações, embora simples, eram inéditas.

Além das melhoras operacionais, como o prolongamento do Expresso Leste até Mogi, o aumento de viagens na Linha 13-Jade e no Expresso Linha 10, renovação da frota em algumas linhas, retomada de algumas obras, entrega de trens novos e projetos voltados para a melhoria do serviço, algumas coisas que nos chamaram a atenção foram as relações internas.

Por meio de seu Instagram, Pedro Moro mostrava as reuniões periódicas com os funcionários, sendo algumas delas realizadas nas bases operacionais, homenagens para alguns colaboradores que fizeram ações pontuais, pesquisa Gestores na Estação, ideias que poderiam melhorar o serviço prestado, transparência em muitas ações, além de uma divulgação e comunicação melhor para com os passageiros e até com os veículos de comunicação.

Isso tornou a CPTM o ator principal dentro da área metroferroviária no ano de 2019, fato que aconteceu pela última vez na década passada, sob nosso ponto de vista, é claro.

A empresa deu sim um salto de qualidade e o melhor de tudo foi que não precisou de grandes aportes financeiros para isso, o que mostra que bastava uma cabeça nova e uma equipe focada para que essa transformação tivesse início. E pelos comentários que vimos nas redes sociais, isso surtiu um efeito positivo, principalmente para os funcionários da operação, manutenção e segurança. Não à toa que a demanda da empresa cresceu e a imagem positiva aumentou em relação ao ano anterior.

As redes sociais estão aí e não nos deixam mentir também. Somos muito ativos e acompanhamos várias páginas que falam do cotidiano do transporte em São Paulo, e muitos comentários positivos foram feitos à empresa.

Mas aí vocês devem, mais uma vez, estar se perguntando: “e a tal melhora da morte?”

Então, como todos nós sabemos e está sendo amplamente divulgado, está em curso a concessão de linhas da CPTM. As linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda serão concedidas juntas. Já a Linha 7-Rubi será concedida junto com o Trem Intercidades (TIC). Sendo assim, a estatal perderá três linhas.

Isso significa que a empresa vá “morrer”? Não, não significa, porém, servirá de alerta, pois essas três linhas, grosso modo, representam cerca de 50% de seus ativos ou infraestrutura. Sendo assim, a CPTM irá encolher e não se sabe qual será o impacto dessa redução.

Uns dizem que ela pode melhorar, pois uma empresa enxuta tende a ser melhor gerida. Outros dizem que isso pode inviabilizá-la no futuro, pelo fato de que duas dessas linhas são as mais “filés” da estatal.

A associação com a “melhora da morte” está aí. Em 2019 tivemos uma CPTM grande, forte e protagonista, depois de passar alguns anos “esquecida”. Porém, agora no ano de 2020, ela será fracionada e isso pode colocá-la em uma situação delicada no futuro.

Não queremos que a CPTM tenha o mesmo destino da Fepasa ou RFFSA, por exemplo. Muito pelo contrário, queremos que a empresa se mantenha firme pelos próximos anos com suas linhas restantes para que, lá na frente, possa retomar os ramais concedidos, se assim for possível.

É uma situação dificílima e que vai depender bastante dos próximos governadores, afinal, quando se fala em concessão de serviços públicos, o peso da questão política é enorme, mesmo os argumentos técnicos dizendo o contrário. Fazendo uma alusão, quem não se lembra do processo de desativação parcial do sistema trólebus paulistano, onde a motivação política reinou durante a extinção de parte das linhas?

Aliás, fica aqui uma reflexão nossa. A CPTM deu um salto positivo em 2019 que, para nós, ela merecia mais uma chance. Uma chance de mostrar que poderia ter uma gestão mais eficiente de suas 7 linhas. O presidente da estatal mostrou que dá para fazer mais com pouco e acreditamos que ele possa continuar nesse caminho com sua equipe que montou e com os funcionários de carreira, agora, mais motivados.

Mas infelizmente quem está no comando do governo do estado, provavelmente, está pouco ligando para isso. Basta se lembrar das ações desastrosas na área de transporte quando foi prefeito de São Paulo.

Esperamos que a CPTM supere essa fase e possa passar por ela da melhor forma possível, afinal, transporte público é um serviço essencial de cunho social, ou seja, na maioria dos casos, a lógica do mercado não se aplica, embora os liberais teimem em dizer o contrário.