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Foto de uma estação do monotrilho (Foto: Thiago Silva)

Parece meio óbvio, mas pensar lá na frente deveria ser uma ação padrão em muitos casos, principalmente quando falamos da área de mobilidade urbana, onde a demanda cresce dia após dia, o que acaba por nos colocar diante de situações de lotação excessiva.

Pensando nisso é de se estranhar certas críticas de que aquela linha de ônibus ou trem é um completo fracasso por conta de sua baixa demanda, mesmo tendo sido implantada há pouco tempo.

Pois bem, no dia 28 de janeiro de 2019, o jornal Agora São Paulo, publicou uma notícia legal sobre o aumento da demanda da Linha 15-Prata de monotrilho que, após a inauguração das novas estações, está chegando em São Mateus, distrito da zona leste da cidade e que tem uma demanda enorme por transporte coletivo.

Até aí, tudo bem. Era sabido que a demanda iria aumentar a partir do momento que a linha passasse a atender mais regiões. O problema é quando usam a demanda atual para justificar erros ou insinuar uma troca de modal.

Na mesma reportagem um especialista em transporte dá uma declaração, no mínimo, polêmica sobre a demanda da Linha 15-Prata. Vejam a seguir:

“Para o engenheiro [nome], mestre em transportes pela Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), a escolha do monotrilho como meio de transporte para a região da zona leste de São Paulo foi um erro.

A zona leste já possui trem e metrô saturados, além de vias congestionadas, afirma. Escolher um modal de transportes de média capacidade é loucura. É como construir uma siderúrgica e comprar carrinho de mão em vez de um trem para levar o carvão.

[Nome] explica que o metrô carrega cerca de 80 mil passageiros/hora em cada sentido na capital paulista. Já o monotrilho, lembra o especialista em transporte, apesar de ter capacidade para carregar 40 mil passageiros/hora, transporta 25 mil passageiros/hora por dia.

Se fosse para carregar essa quantidade de pessoas, era melhor ter feito um corredor de ônibus na região, que custa sete vezes mais barato que o monotrilho, afirma.”

Não gostamos de questionar profissionais e especialistas, pois acreditamos ser, de certa forma, antiético e até deselegante, até porque, a proposta do blog é discutir ideias e opiniões de forma sadia, mas é de se estranhar essa afirmação do engenheiro entrevistado, ainda mais com seu curriculum e experiência invejáveis.

O Plamurb discorda completamente e reforça que a discussão sobre a escolha do modal deveria se nortear entre o monotrilho ou metrô convencional e não com um corredor de ônibus, mesmo ele sendo do tipo BRT.

A Linha 15-Prata ainda não atingiu sua consolidação operacional, embora o nível de lotação esteja muito maior do que inicialmente. E apesar de já se ter inaugurado as estações, existe um tempo de, digamos, maturação e até conhecimento da linha. Isso significa que o potencial de crescimento de demanda é altíssimo. Será assim com essa linha, assim como foi com muitas outras.

Até pouco tempo atrás, a Linha 5-Lilás carregava metade do que carrega hoje (em torno de 600 mil pessoas). Lá no início de sua operação, em meados de 2002, o número de passageiros transportados era tão baixo que criou a alcunha de “linha que ligada nada a lugar nenhum”. Já pensou se, por conta disso, tivessem optado por desmanchar e construir um corredor de ônibus?

Até mesmo as linhas mais antigas de metrô, lá nos anos 70, carregavam muito pouco. E hoje não dão conta da demanda, principalmente a Linha 3-Vermelha.

Outro exemplo é a Linha 9-Esmeralda da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) que lá no início dos anos 2000 transportava por volta de 60 mil pessoas e hoje transporta 600 mil, dez vezes mais!!!

E podem ter certeza que a própria Linha 13-Jade, como seus 15 mil transportados atualmente, terá uma explosão de demanda nos próximos anos quando seu prolongamento para Bonsucesso for concluído, atrelado ao intervalo menor.

No futuro, quando a Linha 15-Prata atingir seu auge, muito provavelmente vão questionar se não seria melhor terem escolhido o metrô convencional e aí sim é uma discussão mais lógica.

De uns tempos para cá, do nada, começou a usar o sistema de ônibus como solução para muitos dos problemas de mobilidade e sabemos que o caminho não é esse. Sempre haverá espaço para esse tipo de veículo, mas é preciso saber ponderar. Os ônibus têm uma capilaridade muito maior que um serviço de trilhos, mas, por outro lado, uma capacidade menor.

Sendo assim, é preciso entender onde e quando implantar um ou outro e, principalmente, projetar demandas futuras.

É por conta de comentários como esse que situações como a troca do monotrilho da Linha 18-Bronze por BRT são levadas adiante. Claro que neste caso a decisão foi puramente política, mas a plena confiança em apenas uma ou duas opiniões de especialistas, podem colaborar com decisões desse tipo. Aliás, será mesmo que o governo estadual consultou especialistas para estudar a troca do monotrilho por BRT? Duvidamos.

Aliás fica até meio confusa a declaração do engenheiro consultado, pois em um momento dá a entender que o monotrilho não dará conta da alta demanda (e isso concordamos), e no mesmo momento, fala-se que um corredor de ônibus estaria mais adequado por conta do número de passageiros transportados por sentido no presente momento. Afinal de contas, o monotrilho está acima ou abaixo da demanda da região?

Se falarem que Linha 15-Prata deveria ser metrô convencional, concordaremos plenamente. Agora em corredor de ônibus, por favor. Chega de soluções baratas, teoricamente rápidas e que podem garantir votos em um mandato de quatro anos. Prefeitos e governadores vêm e vão. O problema deixado por eles, por outro lado, continua aí por muitos anos.

E para finalizar, vocês que ainda torcem o nariz para o monotrilho e não trocam o ônibus por nada, podem ficar tranquilos. Mesmo com a plena operação da Linha 15-Prata, a linha 5110/10 (Terminal São Mateus / Terminal Mercado) continuará firme e forte, afinal, como já dissemos em outro artigo um modal não exclui o outro, muito pelo contrário, se complementam. A linha 4310/10 está aí para comprovar isso.