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Trólebus circulando pelo Corredor Metropolitano do ABD (Foto: Metra)

A substituição da Linha 18-Bronze que seria operada por monotrilho ainda não desceu para muita gente. O governo estadual, com justificativas pífias, decidiu implantar um corredor de ônibus BRT no lugar, quebrando um contrato já assinado que seria tocado em forma de Parceria Público-Privada (PPP).

Garantindo que o BRT daria conta da demanda, a gestão Doria, também, anunciou investimentos em outras linhas de metrô na região do ABC Paulista, tentando amenizar os ânimos mais exaltados daqueles que repudiaram a decisão. Por trás de tudo isso, há um porém. Um porém chamado Metra.

A Metra é uma concessionária do transporte coletivo por ônibus que pertence ao grupo Auto Viação ABC. A empresa hoje opera cerca de 45 km de corredores na região do ABC, sendo 33 km no trecho entre São Mateus e Jabaquara e 12 km no trecho entre Diadema e Brooklin. Além disso, ela administra os terminais e paradas que atendem esses corredores.

Entre os veículos que compõem sua frota, estão os trólebus, veículos híbridos e os comuns movidos a diesel. Tais veículos podem ser simples ou articulados.

A empresa é conhecida por ter uma qualidade alta na prestação de serviço, sobretudo por operar em corredores exclusivos em quase toda sua extensão e ter, digamos, quase que um monopólio operacional. O problema começa aí.

Linha 18-Bronze x Metra

Quando foi concebida, a Linha 18-Bronze teria um traçado maior do que o último divulgado antes de seu cancelamento. A linha seguiria mais para o sul e chegaria em um bairro denominado Alvarenga, uma região muito adensada e geograficamente, digamos, ilhada, pois está entre as duas rodovias que levam ao litoral paulista, no caso a Imigrantes e Anchieta.

Porém, por conta da sobreposição em relação ao corredor da Metra entre os terminais São Bernardo e Ferrazópolis, a linha foi encurtada, não mais indo até Alvarenga e parando na região da Rua Djalma Dutra, a cerca de 2 km do Terminal Ferrazópolis e, aproximadamente, 5 km do bairro Alvarenga.

O fato da Linha 18-Bronze passar sobre parte do corredor da Metra, sempre gerou um desconforto, mesmo que velado, sobre os responsáveis pela empresa, que temiam perder parte dos passageiros, fato que provavelmente aconteceria, visto que a Linha 18-Bronze seria uma ligação mais rápida ao sistema metroferroviário partindo de São Bernardo, teria uma tarifa menor do que a praticada hoje pela Metra e, também, por haver a transferência gratuita na Estação Tamanduateí.

Por conta de tudo isso, muitos chegaram a dizer por aí que talvez a empresa Metra entraria na licitação para operar a Linha 18-Bronze ou faria um lobby para que não saísse do papel. Vejam, essas são suposições, visto que não há provas concretas.

Porém, no histórico brasileiro, a pressão do setor rodoviário contra obras metroferroviárias sempre foi forte, basta ver o destino de nossas ferrovias em relação as rodovias que hoje andam de vento em popa.

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Mapa com o traçado da Linha 18-Bronze e do corredor ABD (Foto/confecção: Thiago Silva)

O melhor dos cenários

Substituir o monotrilho da Linha 18-Bronze seria o melhor dos cenários, considerando o suposto descontentamento da empresa Metra com a referida linha, pois para ela, seria muito mais fácil e prático operar um corredor de ônibus.

Muitos alegam que houve pressão dos empresários da região para a concretização da troca de um modal por outro. O governo estadual, porém, sempre foi firme ao afirmar que a decisão de optar pelo BRT foi puramente técnica, o que o Plamurb discorda totalmente, pois a Linha 18-Bronze não nasceu do nada. Antes de decidirem o modal, foi feito um estudo de demanda, extensão, localização das estações e etc.

Como se joga fora um projeto desses alegando que um corredor BRT daria conta e, pior, em tão pouco tempo de análise? A conta nunca irá fechar. Será que os técnicos que elaboraram a linha em monotrilho são incompetentes a ponto de terem escolhido o monotrilho de forma errada? Duvidamos.

O fato é que a gestão Doria (que sempre defendeu a iniciativa privada a criticou a falta de segurança jurídica), unilateralmente reincidiu o contrato com o Consórcio Vem ABC e anunciou que agora seria um BRT a fazer o antigo traçado da Linha 18-Bronze.

A Metra e o BRT

Quando ocorreu o anúncio do cancelamento do monotrilho, a primeira coisa que muitos pensaram é que a Metra seria a maior beneficiada com isso, inclusive sobre o fato de ela poder operar o novo corredor. Tudo não passava de especulações, quando recentemente, em um documento que mostra o plano de negócios da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU) para o 2020, as suspeitas, aparentemente podem se confirmar.

Denominado agora como BRT Metropolitano ABC Paulista, segundo a EMTU, uma das alternativas para tirar o projeto do papel seria estender o prazo de concessão da Metra de modo que ela possa construir e operar o BRT. Veja a seguir:

“A proposta inicial de investimentos elaborada pela EMTU/SP para o exercício 2020 previu a solicitação de recursos na Ação Orçamentária 2616 para contratação dos Projetos e Desapropriações para implantação do BRT Metropolitano ABC Paulista, que interligará os municípios de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul às Estações Tamanduateí (Linha 2-Verde do Metrô e Linha 10-Turquesa da CPTM) e Sacomã (Linha 2- Verde do Metrô) em São Paulo.

O Projeto de Lei 1112/2019 – Proposta Orçamentária 2020, da Secretaria da Fazenda e Planejamento, encaminhado à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, no entanto, não contemplou recursos orçamentários do Tesouro do Estado na referida Ação.

Ressalta-se, contudo, que foi instituído grupo de trabalho visando à viabilização da execução do empreendimento por meio de parcerias com investimentos da iniciativa privada. Nesse sentido estão em andamento Processos de Qualificação para atendimento da Lei 16.933 (Metra e Áreas 01, 02, 03 e 04 da RMSP), com elaboração de Matriz de Decisões – Análise Comparativa de Itens – Prorrogações dos Contratos de Concessão – RMSP e Metra, cujas informações deverão ser apuradas e preenchidas pelo Grupo Técnico de apoio aos trabalhos que estão sendo desenvolvidos.”

Como se nota acima, mesmo a gestão Doria afirmando que tiraria o BRT do papel, não foi reservada verba para o projeto, reforçando que a substituição foi puramente política e sem que houvesse, realmente, um projeto de BRT pronto para ser implementado o quanto antes.

Ou seja, não há prazo concreto para isso e muito provavelmente não saia dentro da atual gestão, visto que precisaria de um novo estudo, agora, envolvendo o prolongamento do contrato de concessão da empresa Metra, caso se opte por essa alternativa. Um desdém total.

O Plamurb sempre se manteve firme ao repudiar a decisão de substituir o monotrilho pelo BRT por diversas razões. E agora, com esse documento da EMTU, fica claro quem pode ser o único beneficiado, e não será você, passageiro do transporte coletivo.

Isso mostra que os nossos governantes estão pouco preocupados com a questão envolvendo a mobilidade urbana. São decisões políticas que ao longo dos anos continuam a todo vapor e nem de longe representam a sensatez que se espera na condução de uma área tão carente e tão necessária para a população.

Vejam, em 2003, durante a desativação parcial do sistema trólebus de São Paulo, a gestão Marta Suplicy afirmou que a frota desse tipo de veículo seria substituída por ônibus híbridos. Pois bem, chegaram, no máximo, 20 veículos e o restante da frota de trólebus foi trocada por ônibus comuns.

O que eu quero dizer com isso? Falaram tanto em trocar o monotrilho por um BRT, mas sabemos que um BRT de verdade, nos moldes de Curitiba ou Bogotá, necessitaria de grandes aportes e de uma área física maior do que as avenidas atuais por onde passaria o traçado, possuem. Ou seja, não se surpreenda de sair do papel um corredor comum parecido com o já operado pela Metra.