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Trens da CPTM na Estação Presidente Altino (Foto: Thiago Silva)

O governador João Doria (PSDB), parece estar bem empolgado com a ideia de retomar os trens de passageiros ligando a capital até cidades importantes do interior. Durante sua campanha política, ele deixou isso, de certa forma, claro.

Depois de anunciar o Trem Intercidades (TIC) para Campinas, que englobará a Linha 7-Rubi em um processo de concessão conjunta, parece que agora, talvez, o TIC para Sorocaba seja o próximo da fila.

A informação sobre essa possibilidade partiu do atual secretário dos Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, nas redes sociais, após responder um questionamento de um seguidor: “Temos estudos sendo feitos com previsão de levar o trem de passageiros da linha 8 até Sorocaba na concessão que será colocada aos investidores privados”.

A ideia seria incluir o TIC dentro do pacote de concessão das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda que atualmente são operadas pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Para quem não se recorda, o estudo de concessão dessas duas linhas está ocorrendo desde 2016 e a gestão Doria afirmou que agora em 2020, o Edital seja lançado com previsão do leilão para o segundo semestre.

Sendo assim, quem vencer o leilão, obrigatoriamente terá que implantar a ligação ferroviária entre São Paulo e Sorocaba, no mesmo modelo do que vai ocorrer com a concessão da Linha 7-Rubi.

O problema é que a situação da Linha 8-Diamante é bem diferente da Linha 7-Rubi. E vamos mostrar algumas delas.

Diferenças

A Linha 7-Rubi da CPTM liga a região da Luz até Jundiaí. São mais de 60 km de extensão feitos em via dupla com bitola de 1600mm. A linha hoje compartilha carga em todo trecho em horários pré-determinados, sobretudo no vale.

A partir de Jundiaí, os trilhos seguem até Campinas, porém, apenas uma via é utilizada pela concessionária de carga, sendo que a outra está em uma situação ruim de conservação. Teoricamente, a tarefa de levar o trem até Campinas é mais fácil, pois o maior problema, que aparentemente já foi resolvido, é permitir a circulação do trem de passageiros onde hoje só rodam composições cargueiras.

Até o presente momento, o governo estadual afirma que seriam gastos R$ 6 bilhões para implementar a ligação, com muitas alterações em relação ao projeto original. Inclusive estão cogitando usar trens movidos a biodiesel, evitando a eletrificação entre Jundiaí e Campinas.

No caso da Linha 8-Diamante, a situação é bem diferente. A linha liga a estação Júlio Prestes até Amador Bueno, no município de Itapevi, a poucos quilômetros da divisa com São Roque. São mais de 40 km de extensão.

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Trecho abandonado (Foto: Vagner Alexandre Abreu)

Nesse trecho em questão, a bitola também é de 1600mm e não há trens de carga circulando. A partir de Amador Bueno, porém, a bitola é de 1000mm, ou seja, menor que o trecho anterior. Até Mairinque, se não nos falha a memória, o trecho pertence à CPTM.

Há mais um agravante. A supressão dos trilhos e a ocupação ilegal. Entre Amador Bueno e Mairinque, o trecho está completamente abandonado, sendo que em alguns locais, os trilhos foram removidos e há pessoas morando, literalmente, dentro faixa ferroviária.

A partir de Mairinque até Sorocaba a situação muda um pouco. Há a utilização dos trilhos para o transporte de carga, porém, o tráfego é baixo e alguns trechos são em bitola mista (1600mm e 1000mm).

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Trecho abandonado (Foto: Vagner Alexandre Abreu)

Nova modelagem

Até o momento, sempre se falou em conceder as duas linhas e nada mais além disso. Com a possibilidade de incluir o TIC no pacote, muito provavelmente, os estudos sofram uma nova modelagem financeira. Arriscamos dizer que passará de concessão comum para Parceria Público-Privada (PPP), já que a iniciativa privada teria que arcar com a infraestrutura adequada permitindo a ligação entre São Paulo e Sorocaba.

Acreditamos que o custo, inclusive, seria maior, já que, como descrito acima, a situação de todo o trecho em questão é completamente diferente da ligação entre São Paulo a Campinas, a começar pela ausência de trilhos e da bitola estreita.

Outro ponto importante é que em uma apresentação mostrada anos atrás, a demanda da ligação para Sorocaba seria a menor das quatro principais rotas estudadas pelo governo (as outras são Santos e Vale do Paraíba).

Em outras palavras, temos uma rota que necessita de grandes investimentos para sair do papel, mas que, por outro lado, teria uma demanda de passageiros baixa. Como fazer isso parar de pé para tornar o projeto atraente? Sem grandes aportes do governo, a rota ficará no papel apenas.

Trecho ferroviário e serviços complementares

Assim como o TIC para Campinas, a ligação para Sorocaba usaria os trilhos da atual Linha 8-Diamante. Veja, essa é uma suposição nossa, com base nas diretrizes do trem para Campinas. Sendo assim, o mesmo problema pode fazer o serviço não ser tão atraente. E um dos motivos é a geometria e sinuosidade da via permanente.

Com tantas curvas, ficaria difícil manter uma velocidade compatível de modo que fizesse frente ao modal rodoviário. E para se ter uma velocidade compatível, novos trechos deverão ser construídos, tornando a linha mais “reta” possível. E isso, assim como na outra rota, necessitará de grandes aportes.

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Traçado do TIC (Foto/confecção: Thiago Silva)

E para quem não se lembra, há alguns projetos envolvendo as linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, como o Expresso Oeste-Sul e uma ligação para a região de Alphaville. O primeiro teria 20,8 km de extensão ligando Barueri a Pinheiros em 20 minutos. O segundo seria uma ligação entre Carapicuíba, Barueri a Alphaville com 9,6 km de extensão.

Se é para conceder, por que não, colocar tudo isso no pacote? Está na hora da iniciativa privada trabalhar de verdade em prol da mobilidade urbana.

Muitos projetos não saem do papel por falta de dinheiro, como o governo vive alegando por aí. Mas se há um apetite dos investidores, que aproveitem o momento e coloquem tudo isso na concessão para termos novos serviços e não apenas transferir do público para o privado sob a justificativa de uma falsa melhora na operação.

Para nós, o TIC para Sorocaba, ainda, não para em pé. Não, ao menos, com as informações que se tem até o atual momento. A empolgação do governador não se traduz em ações efetivas que realmente melhorem a mobilidade urbana. Estão anunciando tudo, mas tirando do papel quase nada.

Os trens regionais não devem ser usados apenas como satisfação pessoal política e sim como uma nova forma de se deslocar pelo estado e, para isso, precisam ter qualidade de verdade, de modo a atrair passageiros. Esperamos que não estejam pensando em implantar tais ligações apenas por implantar, ou seja, pegar para si a visibilidade de ter tirado a ligação do papel, mesmo que fique aquém do esperado. O TIC é muito mais que isso. É um projeto de Estado e não do governo. E se tiver que investir pesado para que tenha qualidade de verdade, que se invista.