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Governador João Doria (Foto: Agência Brasil/Valter Campanato)

Fica difícil entender o que o governador João Doria (PSDB) quer da vida. Entusiasta de concessões e privatizações, o tucano sempre afirmou que gostaria de ver quase todos os serviços públicos nas mãos do setor privado, o que, para ele, é sinônimo de pura eficiência.

Na época da eleição para o governo do estado, após abandonar a prefeitura de São Paulo, quebrando sua promessa de campanha, Doria, afirmou que gostaria de conceder todas as linhas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô).

E para tanto, afirmou que a Linha 4-Amarela, sob gestão privada, era um sucesso e que todas as linhas estatais seguiriam esse modelo. Inclusive alegou que todas as novas linhas seriam construídas por meio de Parceria Público-Privada (PPP), o que, para ele, seria a garantia de obras rápidas e sem a ocorrência de atrasos ou paralisações.

O que Doria se esqueceu é que a Linha 4-Amarela nunca foi modelo de gestão, pois quem conhece os pormenores, sabe que a linha recebe grandes aportes do governo estadual e tem prioridade no saque da Câmara de Compensação, além do fator de inserção urbana, que beneficia a operação da linha.

Outro detalhe é em relação à Linha 6-Laranja, primeira PPP integral, onde a concessionária construiria e operaria a linha, mas que desde 2016 está com obras paradas e com a incerteza de que, agora, em 2019, a construção será retomada.

Durante o leilão de rodovias que ligam as cidades de Piracicaba e Panorama, o governador voltou a afirmar que pretende deixar nas mãos do setor privado os investimentos em infraestrutura. E ainda citou, como exemplo, o Metrô, onde, em suas palavras, as obras de ampliação da rede não mais receberão recursos do Tesouro do Estado. E ainda ratificou que todas as novas obras serão tocadas pela iniciativa privada por meio de concessão. E aí entra a contradição de Doria, aliás, muito comum em suas falas.

A retomada das obras da extensão da Linha 2-Verde entre Vila Prudente e Penha se dará com recursos públicos. A Linha 15-Prata de monotrilho está sendo tocada com recursos públicos. E, detalhe: a linha já foi concedida para o grupo CCR, que ainda não assumiu o ramal, mas que apenas o operará.

O caso mais emblemático, e que que representa uns dos maiores retrocessos dentro da área de mobilidade urbana em São Paulo, é o da Linha 18-Bronze, o famoso monotrilho do ABC. Doria, de maneira exclusivamente política, quebrou o contrato com a concessionária que operaria a linha, e decidiu trocar o modal, retirando o monotrilho e transformando em um simples corredor BRT.

Ou seja, até mesmo onde o contrato já estava bem encaminhado e tinha tudo para ser promissor, Doria decidiu intervir de forma deliberada e mudar a tecnologia da linha. Pior: o novo corredor será construído, muito provavelmente, com recursos públicos.

Ele simplesmente endossou a falta de segurança jurídica que vive defendendo como forma de atrair o setor privado para obras desse tipo. E, no caso da Linha 18-Bronze, o maior responsável pela não implementação foi o governo estadual, já que o consórcio Vem ABC estava com suas obrigações em dia.

Como, então, confiar na palavra de alguém que muda de discurso como se trocasse de roupa?

Não existe isso de deixar todas as obras futuras do Metrô nas mãos do setor privado. Em nenhum lugar do mundo há algum histórico disso. No máximo um modelo misto, com linhas sendo construídas pelo Estado e por empresas privadas por meio de PPPs. Mesmo por que, há um risco enorme em garantir novas linhas por meio da iniciativa privada.

Em época de escassez de recursos públicos, as parcerias com o setor privado são importantíssimas. E quando há dinheiro no caixa do Estado, as obras devem sim fazer uso desses recursos. Uma situação não anula a outra, muito pelo contrário, acabam se complementando.

Quando prefeito, Doria afirmou que os corredores, ciclovias e terminais de ônibus, tanto os existentes, quantos os futuros, seriam geridos e tocados pelo setor privado. Até o momento, nada saiu do papel. Ao menos, por enquanto, o setor privado não demonstrou interesse nenhum nesses ativos.

Ser gestor de verdade não é simplesmente tornar protagonista um único modelo e sim saber qual modelo usar a depender do momento e da situação financeira do Estado. Qualquer gestor sabe isso. Doria aposta suas fichas na iniciativa privada, porque veio de lá, mas se esquece que, no momento, está no setor público, onde muitas regras e diretrizes são diferentes.

Temos aí dois grandes projetos de linhas de metrô que é a 19-Celeste e a 20-Rosa, a segunda, usada como “compensação” pelo cancelamento da Linha 18. Será que a iniciativa privada vai topar tocar essas obras? Aliás, a Linha 20-Rosa passará por regiões de alto padrão e caso haja alguma desapropriação, não será nada barato.

Enfim, com um discurso raso e contraditório, fica difícil acreditar nas palavras de João Doria. Repetindo: não existe uma única solução para a construção de novas linhas de metrô. Existem duas, ou três, ou até quatro. Um gestor de verdade sabe, e muito bem, disso.