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Ônibus da empresa Sambaíba com nova identidade visual (Foto: Thiago Silva)

Falar do transporte público paulistano sem citar as cores e pinturas dos ônibus é quase impossível. Desde a época do formato Saia e Blusa, até o quase atual, Interligado, a identidade visual nunca foi unanimidade, principalmente para aqueles que acreditam que essa identificação tem um peso importante na inclusão social e na qualidade do transporte.

Recentemente, os ônibus da cidade de São Paulo já estão ostentando uma nova pintura, vamos dizer assim. Tal pintura, ainda, obedece as cores do Sistema Interligado, onde a cidade foi dividida em 8 áreas (mais o centro) e cada uma delas era identificada por uma cor diferente, possibilitando que o passageiro tenha uma ideia de onde aquela linha circula ou a empresa opera.

O problema é que a nova identidade visual já está causando polêmica, tanto pela simplicidade, quanto pela dificuldade de visualização e até a própria identificação do coletivo. Ainda mais com o fundo do ônibus na cor cinza.

Mas antes de seguirmos, vamos fazer um breve histórico das pinturas padronizadas da cidade e como se dava a identificação, para se ter uma ideia de como se chegou aos dias atuais.

Saia e Blusa

O sistema saia e blusa predominou na década de 80. Essa padronização teve início no final da década de 70, durante a gestão do prefeito Olavo Setúbal. A cidade foi dividida em várias áreas operacionais. Cada uma dessas áreas tinha uma cor. Sendo assim, as empresas que operavam nessas áreas foram obrigadas a pintar a parte de baixo (saia) do coletivo com essa mesma cor.

A parte superior do veículo (blusa), era, digamos, livre para a empresa. Muitos diziam que essa era a assinatura da empresa e cada uma deixava do seu jeito. Esse modelo durou até o início da década de 90, quando, na gestão de Luíza Erundina, houve a municipalização e uma nova padronização.

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Ônibus no sistema Saia e Blusa (Foto: Douglas DCZ)

Municipalizado

Implementado, oficialmente, em 1991, essa é considerada por muitos a pior padronização já realizada na cidade. Os veículos eram todos brancos com uma faixa vermelha larga horizontal que envolvia todo o veículo. Ficava acima das rodas e abaixo das janelas.

Havia quatro detalhes em outra cor que representava a região onde a empresa operava. Na parte traseira e frontal, era uma simples tarja. Nas laterais do veículo, era uma letra “M” (de municipalizado) estilizada. Nessa faixa vermelha constava o prefixo do ônibus bem grande e o nome da empresa.

No decorrer dos anos, e com a privatização da operação da Companhia Municipal de Transporte Coletivo (CMTC), esse “M” deu lugar ao logotipo da empresa. Melhorou, mas ainda assim ficou muito aquém do ideal.

Nessa mesma época, apareceram os primeiros ônibus que, em vez da faixa vermelha, exibiam uma faixa verde. Eram os veículos que rodavam em corredor à esquerda, com o João Dias, Inajar de Sousa e 9 de Julho, em praticamente toda a extensão.

Esse estilo, aos poucos, foi se perdendo, visto que muitos veículos com faixa vermelha rodavam em corredores à esquerda, além de veículos com faixa verde rodarem fora dos referidos corredores.

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Ônibus no sistema Municipalizado (Foto: Waldemar Freitas Junior)

Interligado

O Sistema Interligado foi implantado em 2003 durante a gestão de Marta Suplicy. Nessa ocasião, a cidade foi dividida em 8 áreas diferentes, mais o centro da cidade. Cada uma dessas áreas foi identificada por uma cor diferente. Sendo assim, as empresas que operavam nessas áreas tinham que obedecer essas cores.

Sendo assim, os veículos passaram a ter a parte frontal e traseira pintadas na cor da área. No caso da parte frontal a pintura cobria parte da lateral do veículo até a altura da primeira janela em ambos os lados. Havia, também, uma fina faixa lateral que envolvia o veículo de fora a fora.

No Interligado, a ideia do Saia e Blusa foi reeditada, digamos assim, só que de uma forma diferente.

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Ônibus do sistema Interligado (Foto: Thiago Silva)

Interligado/trólebus

Dentro do Sistema Interligado, os trólebus novos que foram adquiridos nos anos 2010, tiveram uma pintura exclusiva e, para nós, icônica. Obedecendo a área de concessão, a pintura praticamente envolvia o veículo todo. Apenas a parte traseira ficava sem cor, na verdade, um tom de cinza claro.

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Identidade visual dos trólebus (Foto: Thiago Silva)

Nova identidade visual

Depois de um resumo, chegamos à nova identidade visual. A nova pintura, grosso modo, é uma mistura do Municipalizado e do Interligado, só que de uma forma, digamos, piorada. Tem a parte frontal e traseira pintada na cor da área, só que não envolve ela completamente. E tem também uma faixa larga lateral, só que ela não envolve o veículo todo.

A novidade é que agora, o logo da São Paulo Transporte (SPTrans) aparece grande, no fim da faixa lateral e na cor cinza. Há também um adesivo indicando o ponto cego do veículo, ou seja, onde o motorista pode não ver a pessoa.

Outro detalhe que nos chamou a atenção é que topo do veículo, na direção da porta traseira, há os seguintes dizeres: “Motor Euro 5 – Ar Mais Puro”. Esperamos que os trólebus também ostentem que são veículos elétricos que poluam muito menos que os ônibus comuns.

Na imagem a seguir, é possível ver como ficou a nova identidade visual. Escolhemos a de um veículo básico, aquele com 12 metros de comprimento. Porém, há detalhes para todo o tipo de ônibus que roda em São Paulo. Para ver, basta clicar aqui.

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Detalhes da nova identidade visual (Foto: SPTrans)

Para nós do Plamurb, a nova pintura não está ruim, pois preserva as cores das divisões de áreas, o que ajuda na identificação. Porém, está inferior ao do Interligado, pois são menos áreas pintadas nos veículos, o que pode dificultar a visualização, ainda mais agora que os veículos são cinzas e o contraste não fica muito bom.

Na parte da frente, por exemplo, só há pintura na tampa, o mesmo ocorrendo na parte traseira. E dependendo da configuração do veículo e o posicionamento dos faróis e lanternas, a área colorida acaba sendo pequena.

A faixa na lateral nos agradou bastante, pois ela é mais larga. Ela poderia, porém, envolver o veículo todo, como era no padrão Municipalizado. A parte da frente e de trás, poderiam manter o padrão atual.

Padronização x despadronização

Além da polêmica com a identidade visual dos ônibus, há também uma discussão acerca sobre padronizar ou não padronizar os coletivos. Antes da década de 80, e do sistema Saia e Blusa, cada empresa tinha sua identidade visual. E essa identidade era a assinatura da empresa. Com as padronizações que vieram nos anos seguintes, todas as empresas passaram a ter a mesma cara, ou seja, eram iguais, pelo menos dentro de sua área de concessão.

Por esse motivo, uma empresa ruim poderia ficar escondida no meio de empresas boas. Já, empresas boas, poderiam não se destacar dentre as empresas ruins. Na época no sistema Municipalizado, até mesmo empresas que não faziam parte da mesma região eram pouco identificáveis. Só aqueles passageiros mais atentos que sabiam qual empresa era.

Por outro lado, nessa época do Municipalizado, havia muito mais flexibilidade no que tange a uma empresa operar linhas fora de sua área de concessão. Se isso tivesse sido mantido nos dias atuais, em regiões onde apenas uma ou duas empresas operam, veríamos muitos outras prestando o serviço também.

Ainda assim, há quem acredite que a padronização reduz custos para o estado e empresa, e que é uma forma de mostrar que o cidadão é passageiro de um sistema de transporte e não de uma empresa em específico. Muitos dizem, também, que com a padronização, o sistema fica com a identificação da prefeitura ou estado (poder concedente) e não com o gosto do empresário (concessionário).

Achamos uma declaração do pesquisador de sistemas de transporte, Mário dos Santos Custódio (dada ao site Diário do Transporte), que é favorável a despadronização, ou seja, a manutenção da identidade visual de cada empresa:

“Para o passageiro, ele enxerga à distância os “seus” ônibus. Para o empresário, gasta menos com combustível, freios e pneus.  Para o gestor público, controla melhor todo o sistema e não confunde gestão com operação. Para a mobilidade, permite que os ônibus andem mais rápido. Para o ambiente urbano, faz com que o colorido das operadoras, cada qual com sua própria padronização, melhore o visual da cidade. Para a qualidade total, faz com que as operadoras queiram efetivamente melhorar sua operação e para o sistema de transporte, permite que, inclusive em consórcio, cada operadora seja perfeitamente identificada. ”

Para nós, poderia haver um meio termo e é esse o ponto que defendemos. As empresas poderiam ter a cor da área de concessão, e na parte livre, poderia ter detalhes próprios da empresa. O padrão do Interligado poderia ser mantido, mais a faixa larga no novo padrão na lateral. E na parte restante do ônibus, seria à vontade para a empresa identificar como quer.

Outro ponto que seria relevante para nós é que os trólebus continuassem com sua identificação exclusiva e que fosse reforçado que são veículos elétricos não poluentes. Já que estão colocando que os novos veículos comuns movidos a diesel possuem o motor Euro 5, que os trólebus possam ostentar também.