20191119_104653_HDR (800x600)
Trem na Linha 12-Safira (Foto: Thiago Silva)

A situação dos ambulantes nas linhas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) sempre gerou grandes discussões e nunca foi unanimidade. De um lado aqueles que se sentem incomodados. Do outro, aqueles que defendem esse tipo de atividade, sobretudo em uma situação de crise econômica.

Enquanto isso, a empresa, dia após dia, faz grande apreensões de mercadorias e entra em conflito, causando agressões e, em casos mais extremos, até óbitos. Até então, nada tem surtido efeito, visto que a cada dia, parece que novos ambulantes passam a vender nos trens.

Pensando nisso, a CPTM, por meio da Secretaria dos Transportes Metropolitanos do Estado (STM), e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) uniram forças para estimular a geração de emprego formal no sistema ferroviário.

O primeiro passo ocorreu na última segunda-feira, dia 25 de novembro, quando o secretário dos Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, anunciou a criação de um curso ministrado pelo Sebrae-SP para capacitação dos vendedores irregulares que atuam nas plataformas, trens, estações e no entorno.

O projeto inédito prevê a cooperação entre a CPTM e o Sebrae-SP não só para qualificar, mas também instalar de forma organizada os vendedores informais que atuam em todo o sistema.

“Nosso objetivo é dar dignidade e legalidade para a atuação destas pessoas que estão sem emprego e buscam no comércio irregular uma forma de renda”, ressalta o secretário dos Transportes Metropolitanos.

A iniciativa pretende atrair as pessoas que estão na informalidade e poderão se inscrever gratuitamente no site da CPTM. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone 0800-055-0121.

“É uma parceria muito importante para todas as estações da companhia, para quem utiliza o sistema e tem a oportunidade de se formalizar no mercado de trabalho”, salienta o presidente da CPTM, Pedro Moro.

Para o projeto-piloto, já estão agendadas duas turmas, com início no dia 4 de dezembro, que farão aulas na estação Engenheiro Goulart, que atende as linhas 12-Safira e 13-Jade. São 48 vagas, divididas em dois horários: das 9h às 13h e das 14h às 18h.

Com duração de quatro horas e para auxiliar o empreendedor a tomar decisões com mais segurança, o curso abordará conhecimentos de gestão; benefícios da formalização; o passo a passo para o empreendedor legalizar o negócio, além de marketing direcionado ao público alvo específico; funcionamento do fluxo de caixa e detalhamento de estrutura e aplicabilidade.

“A CPTM sempre atuando de forma contundente, para gerar qualidade, segurança, capacitações na plataforma e, agora, gerando oportunidade para o empreendedor, para garantir uma vida melhor àqueles que estão como comerciantes ilegais, para que eles se formalizem, se legalizem, tenham seus espaços e se insiram no trabalho do Sebrae”, afirma o diretor-presidente do Sebrae- SP, Wilson Martins Poit.

Após a capacitação, os interessados poderão cadastrar-se como Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (Eireli) e Microempreendedor Individual (MEI), tipos mais simples de empresa que permitem ao pequeno empresário ter acesso fácil a um CNPJ, por um custo baixo e sem burocracia.

A CPTM já está mapeando os locais onde os empreendedores poderão atuar, por um período de tempo determinado, pagando pelo uso do espaço nas estações.

Missão nada fácil

Para o Plamurb, os ambulantes nos trens, da forma como estão hoje, incomodam demais. No passado, a atividade era feita por pessoas realmente necessitadas. Eram poucos. Hoje, infelizmente, muitos o fazem pela flexibilidade e facilidade. E justamente por esse motivo, notamos que a CPTM perdeu um pouco do controle da situação.

Em algumas viagens que fizemos nas linhas da empresa, notamos situações críticas, principalmente na Linha 8-Diamante, que liga o centro de São Paulo até a cidade de Itapevi. Nessa linha, algumas estações são como, digamos, pontos de acesso ao sistema. Podemos destacar, Imperatriz Leopoldina, Comandante Sampaio, General Miguel Costa e Sagrado Coração, essa, no caso, onde vimos uma situação crítica.

Em Sagrado Coração, recentemente, presenciamos metade da plataforma tomada por ambulantes. Eles falavam alto, xingavam, jogavam as embalagens no chão, e pasmem, estavam fumando. Eu, Thiago, particularmente, me senti intimidado. Imaginem pais que estejam com crianças e tenham que conviver com isso.

Ali notamos que não eram apenas pessoas com necessidades financeiras, e sim pessoas que não tinham compromisso algum, apenas em incomodar os outros. Nesse mesmo dia, uma cena nos chamou a atenção. Enquanto os ambulantes faziam bagunça na plataforma, um trem no sentido Júlio Prestes encostou na estação. De dentro dele, saíram alguns seguranças terceirizados da CPTM com algumas mercadorias apreendidas. Para não perderem as suas, os vendedores que ali estavam, tentaram se livrar de suas sacolas. Uma moça arremessou a sua sobre o trem, com o propósito de que caísse do outro lado. Porém, a sacola ficou presa no teto. O trem partiu com vários produtos em cima.

Na Linha 11-Coral, também presenciamos um ambulante vendendo um descascador de frutas e legumes. Após a demonstração, alguns restos ficaram espalhados no piso do trem.

Com essa ação, a CPTM identificará aqueles que realmente querem trabalhar de forma lícita e regularizada. Será uma boa oportunidade de incentivar o empreendedorismo, algo que, felizmente, nos últimos anos, vem sendo fomentado.

Porém, há alguns pontos que ainda estão incertos. Por exemplo, qual seria o valor do aluguel cobrado pela CPTM em suas estações? Levando em conta a origem duvidosa de todas essas mercadorias, será que o preço seria muito mais alto do que é hoje cobrado dentro dos trens?

Levando em conta o grande número de ambulantes e a dimensão das estações, caso uma boa parte opte em participar da capacitação, haveria espaço para todos eles?

Será que mesmo com essa ação, continuaria existindo muitos ambulantes nos trens, concorrendo de forma desleal com aqueles, agora legalizados, nas plataformas? Aliás, essa situação é uma das mais delicadas, pois pode gerar, inclusive, brigas entre os ambulantes legalizados e os ilegais. A CPTM deverá ser muito incisiva neste sentido.

SuperVia tentou algo similar

No ano de 2007, pensando na redução dos vendedores ilegais e a constante repressão, a Supervia iniciou um processo de legalização do comércio ambulante nos trens que circulam em suas linhas. Segundo a concessionária, 170 vendedores tiveram a situação regularizada junto à empresa. Os ambulantes legalizados precisaram se cadastrar, utilizar um jaleco padronizado, crachá de identificação e cumprir certas normas.

Não podiam, por exemplo, carregar muitas sacolas e caixas, deviam ter sempre um saco para o lixo e não deixar a mercadoria desorganizada. Além disso, os que vendiam produtos alimentícios só podiam comprar as mercadorias na única distribuidora autorizada.

Na época, muitos reclamaram que o lucro caiu muito por conta dessa falta de flexibilidade na compra dos produtos e, justamente por isso, a adesão, foi muito menor que esperavam.

Em todo caso, o blog reforça que a ideia é muito bem-vinda e acertada. O futuro vai dizer se haverá a necessidade de algumas readequações para a melhoria do serviço. E dependendo do desempenho do ambulante, ele pode, inclusive, partir para outro nicho, podendo até montar seu próprio negócio próximo de sua residência. A CPTM acertou. Ela ajuda e também será ajudada. Quem sabe, assim, veremos menos cenas de agressão e mais sossego aos passageiros nas viagens.

Aliás, se a desculpa de muitos ambulantes era que a CPTM não estava disposta a regularizar ou negociar, bem, agora a oportunidade chegou. Vamos ver qual será o argumento no futuro.