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Ônibus na linha 107P/10 (Foto: Thiago Silva)

Falar da linha 107P sem lembrar de minha infância é quase impossível. Morei no bairro do Mandaqui, ao lado do ponto final desta linha, por quase 30 anos. Hoje continuo morando na zona norte, mas não tão perto de onde a linha parava.

Quando eu era pequeno, sempre usava essa linha para ir até o centro da cidade com meus pais. Era praticamente a única opção direta. As outras paravam em Santana, no Tietê ou no Shopping Center Norte.

Operada por trólebus desde a sua implantação, a linha do Mandaqui foi criada na década de 60, ligando o referido bairro até a região central da cidade, mais especificamente, a Avenida Cásper Líbero. Sendo gerida pela antiga empresa estatal Companhia Municipal de Transporte Coletivo (CMTC), seus veículos, durante anos, foram os trólebus nacionais fabricados por esta empresa.

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Trólebus na linha 902, antecessora da 107P (Foto: Barry Blumstein)

Com o passar dos anos, as mudanças e necessidades do ponto de vista de mobilidade urbana obrigaram a CMTC a realizar alterações na linha. Sendo assim, em 1981, a linha do Mandaqui foi unificada com uma outra linha que ligava o Jardim Paulista até a Praça Ramos. Estava criada a linha 107P/10 – Mandaqui /Pinheiros.

Sendo uma das maiores linhas de trólebus da cidade, com 18 km de extensão por sentido e viagens que chegavam a demorar mais de 2h nos horários de pico, a linha se tornou icônica na zona norte de São Paulo.

Ela saia do Mandaqui e passava por Santana, próximo da Rodoviária do Tietê, Anhembi, Fatec-SP, Estação da Luz, Santa Ifigênia, Poupatempo Luz, Praça da República, Rua Augusta, cruzava a Avenida Paulista, pegava um pequeno trecho da Avenida Brasil, percorria quase toda a Alameda Gabriel Monteiro da Silva e finalizava a viagem na Avenida Brigadeiro Faria Lima junto ao Largo da Batata, em Pinheiros. Por falar em Gabriel Monteiro da Silva, era a única linha da cidade a trafegar por essa alameda. Um marco.

Quando o Metrô entrava em greve ou parava por qualquer outro motivo, era a principal opção para os passageiros. Os veículos saiam abarrotados do Terminal Principal (TP), o famoso ponto final.

Ela também tinha um fator de renovação alto, com três pontos facilmente identificáveis: Avenida Paulista, Anhangabaú e Santana.

Após a privatização da operação da CMTC, em 1994, a linha passou a ser operada pela empresa Transbraçal (TB Serviços). Pouco tempo depois, novos trólebus passaram a operar nesta linha, do modelo Torino GV, chassi Volvo e equipamentos da Gevisa (Villares).

Dos 37 trólebus nessa configuração adquiridos pela TB Serviços, 8 deles ficaram fixos na linha 107P. E por volta de 1998, eu tive o prazer de andar neles pela primeira vez. Foi fantástico. Suspensão a ar, três portas, catraca igual do Metrô, sistema de ventilação no teto e o “revolucionário” PARADA SOLICITADA, quando apertávamos a campainha para descer. Até então, os outros ônibus que eu usava apenas acendia uma luz avisando o motorista.

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Novo trólebus da Transbraçal (Foto: Adriano Crestali)

Nessa época, o trajeto da linha na região central tinha mudado por conta da Passarela das Noivas e da Passagem Subterrânea Tom Jobim. Vindo da zona norte, os veículos iam pela Rua Brigadeiro Tobias e Avenida Senador Queiroz. Anteriormente, iam pela Rua Washington Luiz e Avenida Cásper Líbero.

No ano 2000, decidi fazer uma viagem de ponta a ponta na linha. Fui do Mandaqui até Pinheiros em um sábado. Até então, o máximo que tinha ido nessa linha era até a Praça da República. De ali em diante era tudo novidade. A famosa Rua Augusta, o Conjunto Nacional, a Igreja Nossa Senhora do Brasil, o Largo da Batata… No caminho vi trólebus de outras linhas e empresas, sendo que lá em Pinheiros, outras três linhas também faziam ponto final.

Em 2001, alguns trólebus oriundos da empresa Eletrobus vieram para a Transbraçal e, claro, para a linha do Mandaqui. Todos os veículos antigos foram retirados de circulação. Porém, a alegria durou pouco. No ano de 2002, os trólebus da linha 107P foram retirados de circulação e substituídos por veículos movidos a diesel, durante a gestão Marta Suplicy (PT), que foi desastrosa no quesito trólebus.

Eu, que adorava o trólebus, fiquei muito chateado e questionei a prefeitura, em uma época onde não existia acesso à internet para mim. Foi tudo na base das cartas e dos telefonemas. Em vão.

A linha passou para a empresa Brasil Luxo que logo depois virou Sambaíba. No começo foi muito mal operada. Tão mal operada que muitos passageiros reclamaram. Tinha dias que eu cheguei a contar cerca de 8 veículos no TP e os intervalos nas alturas. Eu cansei de ligar no antigo número 158. A São Paulo Transporte (SPTrans) chegou a ir lá e autuou a empresa.

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Ônibus a diesel da Brasil Luxo operando na 107P poucos meses depois da retirada dos trólebus (Foto: Thiago Silva)

Depois de alguns meses, a operação melhorou, mas muito aquém de quando era a CMTC e Transbraçal.

Nesse período de Sambaíba, a linha operou com veículos Urbanuss Pluss, Mega Neobus, Apache Vip (nas mais variadas configurações) e Millennium II Piso Baixo Dianteiro (PBD). Mas foi o Millennium Piso Baixo Central (PBC) que ficou imortalizado e famoso na linha nessa época.

Na segunda metade da década de 2000, a itinerário da linha sofreu outra alteração. Agora, a linha seguia, no sentido Pinheiros, pela Avenida Cruzeiro do Sul para passar em frente ao Metrô Santana. Mais adiante, por conta da transformação em mão única da Rua Paineira do Campo, os veículos passaram a ir pela Rua Santa Eulália. Na região central, a linha passou a ir direto pela Avenida Ipiranga deixando de contornar a Praça da República.

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Placa da linha 107P (Foto: Thiago Silva)

Um fato interessante é que havia algumas datas onde os trólebus não circulavam ou tinham o trajeto encurtado. Geralmente isso ocorria por conta de feriados com festividades, como o Desfile de 7 de Setembro. Nessa ocasião, ônibus comuns eram colocados no lugar. Outra data onde acontecia algo similar era o 31 de dezembro, por conta da Corrida de São Silvestre. Na época dos trólebus, eles iam até a Avenida Cásper Líbero apenas. Após a desativação dos elétricos, os ônibus passaram a ir pela Avenida 9 de Julho.

No início da década de 2010, a SPTrans criou o Blog Tour, onde leitores enviavam sugestões de linhas de ônibus que passavam por pontos turísticos da cidade. Evidentemente que eu indiquei a 107P. A SPTrans aceitou minha sugestão e publicou. Demais.

Em 2012, após 10 anos da desativação dos trólebus, a linha recebeu um tiro de misericórdia. Boatos diziam que a linha seria desativada por completo. Em setembro, eu cheguei a entrar em contado com a SPTrans, mas a empresa afirmou que não havia nenhuma previsão de alteração na linha.

Com o passar dos dias o boato ficava mais forte. No final do mês de outubro a SPTrans confirmou a mudança em seu site. A partir do dia 10 de novembro, a linha 107P seria “unificada” com a linha 107T/10 – Metrô Tucuruvi / Cidade Universitária, que, a partir desta data, seria encurtada em Pinheiros.

Eu entrei em pânico. Conversei com motoristas e cobradores que confirmaram a desativação da linha. Liguei, mandei e-mail, fiz um abaixo-assinado e divulguei nas redes sociais. Coletei assinaturas na faculdade, no meu serviço e com meus familiares. Tudo me vão.

Um dia antes da desativação, embarquei na linha, vindo do centro. Conversei com o cobrador e ele explicou que um dos motivos seria a suposta demanda baixa da linha, cerca de 6 mil passageiros por dia. Porém, a 107T transportava pouco acima disso.

O veículo chegou ao TP. Desembarquei e fiquei lá tirando algumas fotos e fazendo vídeos. O totem da linha já havia sido removido.

No dia seguinte, fui ao local e já não tinha mais nenhum ônibus da 107P lá. Continuei insistindo junto à SPTrans e apresentando argumentos sólidos e técnicos mostrando o erro ao desativar a linha. Recebia apenas respostas padrão da empresa.

A zona norte e o Mandaqui perderam uma linha icônica e superimportante do ponto de vista da mobilidade. Hoje, o morador do bairro que precisa ir até a região da Estação Luz ou República, obrigatoriamente precisa usar duas linhas, uma até Santana e outra até o centro.

A 107P poderia ter ficado. O Mandaqui não possui estação metroferroviária, nem corredor, nem terminal e nem faixa exclusiva, coisas que o Tucuruvi possui e que a 107T usufrui. Desativaram uma linha de um bairro carente de infraestrutura de transporte público e mantiveram a de um bairro com Metrô, o que garante um deslocamento mais rápido. Há muitos outros motivos, motivos esses que expliquei ao longo dos meus vários embates com a SPTrans.

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Mapa com os traçados da linha (Foto/confecção: Thiago Silva)

Em 2015, com a divulgação do Edital de licitação, o Mandaqui teria duas novas linhas, uma indo até a região do Metrô Conceição pela região do Pacaembu e outra indo até o Terminal Parque Dom Pedro II, que nada mais nada menos seria um prolongamento da atual linha 2104/10, que hoje para em Santana. Mas até agora, nada se sabe sobre essas linhas e se, efetivamente, sairão do papel. Há, inclusive, a proposta de construir uma Estação de Transferência (ou Conexão).

Em todo caso, a 107P sempre será lembrada com a primeira linha do Mandaqui que possibilitou aos seus moradores irem diretamente ao centro de forma rápida e econômica. Foram mais de 40 anos em operação, 3/4 deles com trólebus.

Abaixo, seguem as principais ruas e avenidas por onde a linha trafegava na época dos trólebus.

Ida: Rua Voluntários da Pátria, Avenida Santos Dumont, Ponte das Bandeiras, Avenida Tiradentes, Rua Brigadeiro Tobias, Avenida Senador Queiroz, Praça Alfredo Issa, Avenida Ipiranga, Praça da República, Avenida São Luís, Rua Augusta, Rua Colômbia, Avenida Brasil, Alameda Gabriel Monteiro da Silva, Avenida Brigadeiro Faria Lima e Largo da Batata.

Na volta, o trajeto era praticamente o mesmo, se diferenciando apenas por passar na Rua Caio Prado, um pequeno trecho da Rua da Consolação, Rua Coronel Xavier de Toledo, Praça Ramos de Azevedo, Largo do Paissandu, Largo Santa Ifigênia, Avenida Cásper Líbero e Avenida Cruzeiro do Sul, em Santana. Tudo por conta de mãos de direção e proibição de conversão nas ruas.

Segue vídeo feito no último dia da linha. Reparem o motorista dando tchau.